
Um dia depois do outro, nada foi tão importante naquela época quanto aprender a amarrar os sapatos. Chamei minha mãe para que visse minha grande vitória... um tênis conga, preto com solado brando, meias brancas para combinar com o uniforme da pré-escola...
Manhê, olha, eu consegui!
E segui, honrada e vitoriosa rumo ao ponto de ônibus, de mãos dadas com minha mãe, me sentindo invencível... um frio na barriga indescritível para a época, mas viciante!
Eu tenho acordado alguns dias em dúvida, descalça, olhando para os calçados no canto do quarto, me perguntando se vou conseguir colocá-los agora...
Mudei o cenário. Quis fazer e fiz, agora só falta calçar os sapatos...
Como depois de vinte e poucos anos depois, ainda estou aprendendo a amarrar meus sapatos?
Agora eles tem outras formas, não mais um conga preto, nem mesmo é necessariamente um sapato. Uma saudade viva da sensação de vencer, conquistar, aquele frio na barriga, o desafio de juntar os cadarços, dar a volta, puxar, mexer o pé... caminhar firme...
Quando a gente tenta de toda maneira dele se guardar,
sentimento ilhado, morto e amordaçado, volta a incomodar...